"Nas últimas décadas o interesse por artistas da fome diminuiu bastante. Se antes era compensador promover, por conta própria, grandes exibições desse gênero, hoje isso é completamente impossível...".
Mas as semelhanças param já a esta altura. Pois a narração em Kafka vai crescer para um determinado artista, o faquir. E, entre nós, no Recife, o gênero de artistas da fome é outro.
Aqui, no artista das ruas, a fome se oferece como uma bonificação. Algo assim como "vejam a sua habilidade, e ganhem de quebra os seus ossos". São palhaços, malabaristas de circo sem lona, que se exibem nos largos públicos, sem camisa, descalços, verdadeiros artistas recusados no picadeiro.
Na praça do Carmo, há um mês, havia um desse gênero. Cafuringa, mulato alto, misto de empresário e apresentador, que não há muito houvera sido ventríloquo de seu Benedito, um boneco negro, com certeza seu parente, porque quase tão feio e abusado quanto o seu dono, Cafuringa, o ex-animador do seu Benedito, dessa vez implorava, com um microfone, para a sua nova cria:
- Cidadões, meus senhores....Vamo colaborar, vamo colaborar, minha gente. Quem dá 1 real, para o show do artista? Vamo lá, gente...
Silêncio, a multidão sem movimento espera, em paciente resistência. Cafuringa volta:
- Vá lá: 50 centavos, quem dá? Assim num dá. Assim num tem espetáculo. Num dá nem pra pagar a bateria que eu aluguei pra esse microfone. (Silêncio) Vamo. Se cada um der 10 centavos, o espetáculo começa. Olhem o home. No centro da arena, ou da roda formada na praça, eis o homem: um jovem magro, que a gente percebe que é magro por falta de substâncias mais sólidas, pois o seu natural, por esqueleto, não é ser raquítico, no centro da arena está um jovem grunhindo, fazendo comicidade, no seu entender, pois grunhe e contorce-se com ar gaiato, todo amarrado por cordas.
- Ói, ói, tá doendo. Que nó arretado. E remexe-se, dançando nos quartos. A pele do seu peito, dos seus braços, do seu ventre teso, é um couro sujo, cor de cobre tostado, de moeda de um tostão. - Tá doendo, ói, ói... E dança nos quartos. Cafuringa conta as moedas: setenta e cinco centavos. Moedas arrecadadas num ajuntamento de cerca de trinta pessoas. E explode:
- Assim num dá. E desliga o microfone. O artista pára de rebolar, e toma um ar falsamente triste, de palhaço sem máscara, como se representasse um Cristo molambo, de drama de camelô. Ele não tem olhos, está cabisbaixo, tem só um cabelo grosso, quase da cor do couro da sua pele, num amarelo que perdeu a luz porque ganhou tons toneladas de sujeira. Cafuringa, no segundo ato do drama, como se apiedado de sua cria, volta:
- Se completarem 1 real, tem espetáculo. Tão vendo não? Ele vai se soltar sozinho dessas cordas. ("Tá doendo, assim é covardia", faz-lhe coro o artista). O chapéu passa mais uma vez. Completam pouco mais que 1 real. E acontece o assombro: agitando-se nos braços, que mantinha a certa distância do peito, a Quinta Maravilha de nossa pobre esperteza desvencilha-se das cordas, urrando. Nem um só chocho aplauso o recompensa. Mas, consideremos, se além de ganhar o seu real, o artista ainda fosse aplaudido, aí também já era covardia.
Urariano Mota - Recife, Brasil
E-mail: urarianoms@uol.com.br
Lê uma sentença no Diário Oficial e fica completamente perdido?
Acha a linguagem forense de outro planeta?
Com o curso rápido abaixo, você vai entender o que é o Direito:
1- Princípio da iniciativa das partes - 'faz a sua que eu faço a minha'.
2 - Princípio da fungibilidade - 'só tem tu, vai tu mesmo' (parte da doutrina e da jurisprudência entende como sendo 'quem não tem cão caça com gato').
3 - Sucumbência - 'a casa caiu!!!'
4 - Legítima defesa - 'tomou, levou'.
5 - Legítima defesa de terceiro - 'deu no mano, leva na oreia'.
6 - Legítima defesa putativa - 'foi mal'.
7 - Oposição - 'sai batido que o barato é meu'.
8 - Nomeação à autoria - 'vou cagoetar todo mundo'.
9 - Chamamento ao processo - 'o maluco ali também deve'.
10 - Assistência - 'então brother, é nóis'.
11 - Direito de apelar em liberdade - 'fui!' (parte da doutrina entende como 'só se for agora').
12 - Princípio do contraditório - 'agora sou eu'.
13 - Revelia, preclusão, perempção, prescrição e decadência - 'camarão que dorme a onda leva'.
14 - Honorários advocatícios - 'cada um com os seus problemas'.
15 - Co-autoria, e litisconsórcio passivo - 'passarinho que acompanha morcego dá de cara com o muro', ou 'passarinho que dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo'.
16 - Reconvenção - 'tá louco, mermão. A culpa é sua'.
17 - Comoriência - 'um pipoco pra dois' ou 'dois coelhos com uma paulada só'.
18 - Preparo - 'então... deixa uma merrequinha aí.'
19 - Deserção - 'deixa quieto'.
20 - Recurso adesivo - 'vou no vácuo'.
21 - Sigilo profissional - 'na miúda, só entre a gente'.
22 - Estelionato - 'malandro é malandro, e mané é mané'.
23 - Falso testemunho - 'fala sério...'
24 - Reincidência - 'porra, mermão, de novo?'.
25 - Investigação de paternidade - 'toma que o filho é teu'.
26 - Execução de alimentos - 'quem não chora não> mama'.
27 - Res nullius - 'achado não é roubado'.
28 - De cujus - 'presunto'.
29 - Despejo coercitivo - 'sai batido'.
30 - Usucapião - 'tá dominado, tá tudo dominado'.
site: Cybercrafty
No VIII Fórum Brasileiro de Direito, o Pós-Doutor, Lênio Streck, de forma ímpar, abriu a palestra – “20 anos: um discurso sobre a cegueira constitucional” – à luz de Charles Chaplin, cujo texto já me era íntimo. Contudo, quase que não me contive, em ir ter com palestrante ao púlpito. Afinal, por si só, já é grandiosa a propositura, daquele que diz não si considerar cidadão de nenhum país, mas em particular, ser um cidadão do Mundo, Charles Chaplin.
Eis que segue o texto:
“A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem vários namorados, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”, por Charles Chaplin.
Não deixa de ser, deverasmente, pertinente.
A luz de Clarice Lispector, eu "suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca". Por isso, advirto que ''quando o processo histórico se interrompe, quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar [ou não!]”, ainda que assim afirme W. H. Auden.
Culpemos, a tudo que agora nos envolve, a Baltasar Gracián, que a bradar que "tudo tem seu tempo e até certas manifestações mais vigorosas e originais entram em voga ou saem de moda. Mas a sabedoria tem uma vantagem: é eterna”, me brigar a retirar o véu-do-Maia.
Depois, recomposta, sorrio mansinho e me encontro.
Um sol pra cada um.
Um visual espetacular pra todos!
....essa é para pensar no domingo no fim-de-semana.
Nolava Adargas!
"...ela relutara tanto em voltar as letras, letras eram sinônimo de sal e sal sinônimo de lágrimas. Mas as letras voltaram e com elas o sal. O mesmo sal que tempera a vida era o que escorria pelo rosto. Tempero dispensado. Mas o que se fazia mais presente..."
"...as duas tinham um grito preso na garganta. Menina e mulher. Uma grita a outra chora. Papéis se inverteram, sobraram certezas. Certezas tão grandes que até assustavam. A dor, o choro preso o grito contido. Tudo explodira. Fez-se festa e fez-se medo. Qual se fez mais elas não sabiam. Sabiam sim o que sentiam, mesmo sem saber explicar..."
...
Trajetória
Não perca tempo assim contando história
Pra que forçar tanto a memória
Pra dizer
Que a triste hora do fim se faz notória
E continuar a trajetória
É retroceder
Não há no mundo lei que possa condenar
Alguém que a um outro alguém deixou de amar
Eu já me preparei, parei para pensar
E vi que é bem melhor não perguntar
Porque é que tem que ser assim
Ninguém jamais pode mudar
Recebe menos quem mais tem pra dar
E agora queira dar lincença, que eu já vou
Deixa assim, por favor
Não ligue se acaso o meu pranto rolar, tudo bem
Me deseje só felicidade, vamos manter a amizade
Mas não me queira só por pena
Nem me crie mais problemas
Nem perca tempo assim contando história...

